12 de maio de 2015

Finlândia ou tigres asiáticos: qual é o melhor modelo de educação para a América Latina?




Credito: Getty


Um pequeno país do norte da Europa, com pouco mais de cinco milhões de habitantes, tem sido um exemplo para outros países na educação por mais de uma década.

O desejo de aprender com o modelo finlandês levou o Brasil e o Chile, entre outros, a estabelecer programas de cooperação com professores visitantes.

Mas a queda da Finlândia em rankings internacionais como nos testes do PISA - exame internacional da Organização para a Cooperação Desenvolvimento Econômico (OCDE) - levantou dúvidas sobre o sistema do país, que dá enfase à formação de professores e busca se libertar da "camisa de força" do currículo baseado em disciplinas.

Para alguns especialistas, o modelo finlandês é um "conto de fadas". Para outros, é o modelo do futuro. Afinal, quem está certo?
Chega de 'disciplina'

Recentemente, o sistema de educação do país voltou a atrair atenção quando diversos veículos publicaram que a Finlândia iria abolir as disciplinas - como matemática ou geografia - do currículo escolar.

O governo esclareceu, porém, que apenas iniciou uma reforma em que haverá mais projetos interdisciplinares, com um tópico - por exemplo, a União Europeia - visto no contexto de diversas matérias.

Para Leonor Varas, doutora em matemática e especialista em educação da Universidade do Chile, e que dirigiu durante três anos um projeto de pesquisa bilateral do país com a Finlândia, a América Latina ainda tem muito o que aprender com o sistema finlandês.

Yong Zhao, professor de origem chinesa do departamento de educação da Universidade de Oregon, questiona a autoridade que se confere aos rankings do PISA.

"As provas do PISA não são uma medida de qualidade da educação, a menos que equiparemos a educação com preparação para fazer uma prova do PISA", disse Zhao à BBC Mundo.

A Finlândia encabeçou em 2000, 2003 e 2006 o ranking do PISA, que compara o desempenho em matemática, ciência e leitura de meio milhão de alunos de 15 anos em 65 países.

No entanto, nos últimos resultados divulgados, relativos aos testes de 2012, a Finlândia não estava entre os dez primeiros em matemática. Os oito primeiros lugares são ocupados por sistemas asiáticos (Xangai, Cingapura, Hong Kong, Taiwan, Coreia do Sul, Macau e Japão).

Para Gabriel Heller Sahlgren, diretor de pesquisas do Centro para Estudos de Mercado de Educação, com sede em Londres, o sistema finlandês está em declínio.

Em um artigo publicado pelo think tank britânico Centre for Policy Studies, Sahlgren destaca que o êxito da Finlândia em anos anteriores não foi um produto do sistema atual, mas um legado da centralização educacional implantada quase quatro décadas atrás.

"É simplista olhar o atual sistema de educação finlandês sem ver sua história", disse Sahlgren.

"Em vez de se diferenciar dos centralizados sistemas asiáticos, a Finlândia fez, durante 40 anos, precisamento o que hoje fazem muitos países emergentes: investir de forma massiva e centralizada em educação".




Outros autores questionam os "mitos da educação finlandesa." Tim Oates, do centro de preparação e avaliação de exames Cambridge Assessment, da Universidade de Cambridge, é autor de um estudo intitulado Contos de Fadas finlandeses.

Oates adverte, assim como Sahlgren, que os bons resultados alcançados na Finlândia em 2000 são produto não da autonomia com que geralmente é associado o sistema finlandês, mas às reformas implementadas nos anos 70 e 80.
Professores com mestrado

Mas para Leonor Vargas, que visitou várias escolas finlandesas e conhece bem o sistema de um novo tigre na educação, Cingapura, o modelo a ser seguido pela América Latina continua sendo o finlandês.

Ela acha que a questão-chave na Finlândia - e que poderia fazer a diferença nos países latinos - está na formação de professores, que tanto no ensino fundamental e básico precisam ter mestrado.

"É um sistema centralizado e a preparação nas dez universidades que formam professores é muito semelhante", diz Varas.

Na América Latina, em contraste, "é possível encontrar formações incrivelmente diferentes."

Varas disse que o elevado nível de formação permite que os professores finlandeses sejam criativos. "Eles são exigentes e centralizados, mas ter um nível tão elevado lhes dá liberdade para manipular e responder a cada situação particular frente às necessidades de seus alunos."

O aperfeiçoamento dos professores também é diferente.

"E eles são muito profissionais. Por exemplo, um professor em nosso projeto que visitei havia recebido em sua classe um aluno surdo e havia retornado para a faculdade para estudar como ensinar um aluno surdo."
Status e salários

Os professores são altamente respeitados na sociedade.

"Um amigo pesquisador da Universidade de Helsinki se apresenta em todo o mundo como um doutor em psicologia. Mas em seu país se apresenta como professor de educação básica", diz Varas.

"Para ser professor, teve que passar por cursos para os quais havia dez pessoas por vaga. É mais fácil obter uma vaga em um doutorado em psicologia."

O salário anual de um professor do ensino médio na Finlândia (US$ 28.780) é menor do que nos EUA (US$ 44.917 dólares), de acordo com o Índice Global de Status dos Professores 2013 da fundação britânica Varkey GEMS.

Mas há outras condições que explicam por que muitos finlandeses escolhem ser professores de crianças.

"É a qualidade de vida. O tempo que você tem que estar presente na escola não é mais de 20 horas por semana", disse Varas.

"É claro que eles trabalham mais de 20 horas, mas podem fazer isso colaborando com outros professores, preparando as aulas, analisando trabalhos escolares. Sua profissão lhes permite passar mais tempo com seus filhos, ter uma vida feliz, estudar e se desenvolver profissionalmente."
Cingapura: valores para o século 21

O Chile também colabora com Cingapura, e professores do Instituto Nacional de Educação, que forma os professores do país asiático, visitaram escolas chilenas.

"Uma vez eu dei parabéns a um dos fundadores do Instituto Nacional de Educação de Cingapura, porque eles eram o número um nos testes TIMSS, que medem o desempenho em matemática."

"Mas ele me disse 'Por que parabéns'? Não é o que nós queremos. Nós queremos ser como a Finlândia, que nossos alunos pensem mais, que desenvolvam mais a capacidade de resolver problemas fora do padrão."

Varas disse à BBC que, inicialmente, o sistema de Cingapura estava muito focado em conteúdo, mas agora dá grande ênfase à aquisição de valores.

"Eles chamam isso de competências para o século 21". Buscam desenvolver pessoas íntegras, comprometidas, capazes de trabalhar em equipe, de aprender ao longo da vida. É definitivamente algo muito diferente do que vimos em Cingapura no início da nossa colaboração".
Pressões na China

O fato de a Finlândia não estar entre os top 10 em matemática no PISA não significa que a educação piorou, de acordo com o chinês Zhao.


"O PISA não necessariamente mede a qualidade da educação. E a posição da Finlândia no ranking caiu em termos relativos em parte porque mais sistemas do leste da Ásia participaram com bons resultados."

O primeiro lugar do PISA em matemática ficou com Xangai, mas Zhao, que foi educado na China, questionou aspectos do sistema educacional neste país.

"Os estudantes na China enfrentam uma enorme pressão para obter bons resultados nos exames, têm grande carga acadêmica e gastam enormes quantidades de tempo se preparando para testes. Por isso a educação acaba se tornando uma preparação para os exames", disse Zhao.