17 de fevereiro de 2015

Pulseira vira arma contra dengue em cidade de SP; eficácia não é comprovada


A escriturária Lourdes Guimaraes, 50, usa uma pulseira no tornozelo como prevenção, e para evitar o cheiro forte

Um cheiro de citronela circula no ar de Guararapes (545 km de São Paulo) desde que um surto de dengue tomou conta da cidade neste ano. Pulseiras coloridas compostas com a substância que espanta mosquitos vendem como água na cidade.
Feitas de borracha, elas são vistas nos punhos ou tornozelos dos moradores. O cheiro forte incomoda a maioria, que ainda sim prefere se sentir mal cheiroso do que ficar doente.
No entanto, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) não confirma a eficácia do produto como repelente do Aedes aegypti, o mosquito causador da dengue.
Médicos consultados pelo UOL também não veem o uso da pulseira como solução para o combate à dengue, embora considerem a citronela um repelente natural de mosquitos em geral. Os repelentes como um todo podem ser aliados desde que usados com muita frequência.

2015 já tem mais casos que 2014

De 1º de janeiro a 5 de fevereiro foram notificados 1.619 casos de dengue em Guararapes. Destes 1.206 foram confirmados -- e três pessoas morreram da doença. Os números são muito maiores do que todas as incidências do ano passado, quando foram notificados 455 casos de dengue na cidade e nenhuma morte, segundo a Secretaria Municipal de Saúde de Guararapes.  De modo geral, houve um aumento de 256% nos casos de dengue na cidadezinha de 30 mil habitantes.
A escriturária Lourdes Galdeano Guimaraes, 50, moradora de Guararapes, usa uma pulseira no tornozelo como prevenção. Ela evita usar no braço porque se sente enjoada com o cheiro forte, mas já adota o hábito há duas semanas, juntamente com toda a família.
"Minha família toda usa: meu filho, meu marido, minha mãe e até minha irmã que veio de Campinas. A gente percebeu que mesmo usando inseticida, não estamos totalmente protegidos, então estamos tentando de tudo para não pegar dengue", diz.
Lourdes passa inseticida diariamente nos cômodos da casa, fecha as janelas após as 17h e evita acumular água no quintal para impedir algum criadouro do mosquito. Mesmo assim diz ter vizinhos e dois amigos doentes.
As farmácias de Guararapes tentam suprir a demanda com estoques cada vez maiores das pulseirinhas.  Segundo o farmacêutico Luis Fernando Tovolo, da Farmario, nos últimos 20 dias ele vendeu pelo menos 500 pulseiras de citronela, a R$ 5 a unidade. Depois de aberta, ela dura em média cinco dias.
"Há famílias que compram de dez a 12 pulseiras de uma vez. Eu nem tinha para vender, mas começou a ter uma procura e tive que contar com uma entrega diária", afirma.
As pulseiras vendidas em Guararapes são da marca Bye Bye Mosquito, fabricadas pela GPI Costa, de Penápolis (SP).
Antônio Costa, diretor administrativo da Aloha Distribuidora, que revende as pulseiras, afirma que o produto tem índice de repelência de 83% a 86% aos pernilongos, e de 80,5% a 84,5% de eficácia como repelente do mosquito da dengue.
Por causa do surto no Estado de São Paulo, houve um aumento de até 40% nas vendas das pulseiras, que ele distribui desde 2009 para vários Estados.
A Anvisa confirma a validação do registro da Bye Bye Mosquito até fevereiro de 2019. Mas afirmou, por e-mail, que o teste de eficácia do produto foi "satisfatório apenas contra mosquitos da espécie Culex quinquefasciatus, que é transmissor da malária. Quanto ao Aedes aegypti, da dengue, não apresentou análise de eficácia".

Citronela repele mesmo?

Como o mosquito da dengue tem o costume de voar baixo, usar a pulseira no punho, como o normal, pode não ser tão útil para quem não quer ser picado, alerta a infectologista Nancy Belei, da Unifesp (Universidade Federal Paulista).
"Os mosquitos voam baixo e muitas vezes somos picados na perna e nem percebemos. Não recomendaria esse investimento sem a pessoa ter certeza da eficácia. Já sabemos que há mosquitos resistentes a vários tipos de repelentes", afirma Nancy Belei.
Já para o infectologista Luis Fernando Aranha, do Hospital Israelita Albert Einstein, tanto a pulseira como os repelentes a base de citronela têm suas limitações e só funcionam enquanto o principio ativo estiver na pele, por isso não deve ser considerada uma estratégia de prevenção, além de ser uma estratégia cara.
"Algum grau de proteção tem, mas não deve ser aplicada como medida de prevenção de massa. É muito mais garantido controlar o vetor, mapear casos do que ficar usando essas coisas. Já se usar o repelente  24 horas por dia, consegue. Mas mesmo assim não é 100% de garantia de não pegar dengue dessa forma", afirma Aranha.
O uso de repelentes com concentrações acima de 25% e que prometem proteção de 12 horas ou mais são os mais indicados e com maior capacidade de proteção, segundo o infectologista Alberto Chebabo, do laboratório Delboni Auriemo.
"Há os repelentes com 50% de concentração de agente ativo, mas aqueles com concentração acima de 25% já protegem bastante. Eles devem ser passados novamente depois do banho, de entrar no mar ou de suar muito. Recomendação que pode não se aplicar aos alérgicos, que terão de testar na pele e, ao sentir reação, adotar um com concentração menor e usar mais vezes ao dia", explica Chebabo.