27 de fevereiro de 2015

Brasil tem `fila´ de 437 mil mandados de prisão


Brasil tem `fila´ de 437 mil mandados de prisão


Se todos fossem cumpridos, não haveria como gerir o sistema carcerário, diz especialista sobre dado do CNJ

Brasil tem uma fila de mandados de prisão à espera para serem executados pelas polícias — quase 437 mil, segundo o Banco Nacional de Mandados de Prisão (BNMP), do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). A maioria é referente a decisões dos três tribunais de Justiça dos estados mais populosos: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. A estatística do CNJ concentra dados das Justiças estadual, federal, militar e eleitoral.
Uma mesma pessoa pode ter contra si mais de uma ordem de captura. Embora revele o número de mandados de prisão, a ferramenta do CNJ não informa quantas pessoas são alvos deles. Ainda assim, se todos fossem executados ao mesmo tempo, o sistema carcerário sofreria um colapso, na opinião de especialistas. Os dados mais recentes do Ministério da Justiça, de dezembro de 2012, apontam que o Brasil tem uma população carcerária de 548 mil pessoas, das quais 75% estão presas em regime fechado provisoriamente ou por terem sofrido condenação definitiva. O déficit, que naquele ano era de 237 mil vagas, seria ainda maior, com o cumprimento de todos os mandados.
"Se fossem cumpridos todos os mandados de prisão haveria um quadro ainda mais grave, nesse contexto em que o Brasil já é o país com a terceira maior população carcerária. Não teria como gerir isso. Hoje, o Brasil tem a maior taxa de encarceramento no mundo. Há uma certa cultura de encarceramento. A regra é a liberdade, a prisão deve ser excepcional. Se a gente tem um número alto de pessoas presas sem condenação, temos uma inversão dessa lógica", opina o professor de Direito Penal André Mendes, da FGV Direito Rio.
Desde a alteração no Código de Processo Penal, em 2011, há um esforço para substituir, em alguns casos, a prisão provisória por medidas cautelares — como o uso de tornozeleiras eletrônicas, proibição do réu de deixar a cidade e a obrigação do acusado de comparecer à Justiça de tempos em tempos. No Brasil, 38% dos presos no sistema penitenciário ainda aguardam julgamento.
Maioria da demanda é da justiça
O professor André Mendes, da FGV-Direito Rio, diz que a sensação de que os mandados de prisão da Operação Lava-Jato são cumpridos de forma mais rápida que os demais tem uma explicação:
"A Polícia Federal atua em crimes que são de competência da Justiça Federal. O fluxo de trabalho da Polícia Civil é muito maior e o número de mandados, também. A Polícia Federal acaba conseguindo cumprir com mais eficiência, por causa do fluxo." afirma ele.
Os próprios dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) evidenciam a diferença, exposta pelo professor. De cada dez mandados de prisão que constam na base do conselho, nove são da Justiça estadual.
Criado em 2011 por meio de uma resolução do CNJ e posto em prática no início de 2012, o Banco Nacional de Mandados de Prisão (BNMP) reúne em um único sistema os nomes de quem deveria estar preso. A desarticulação entre os estados sempre foi um problema. Agora, caso uma pessoa seja detida em uma unidade da Federação, a polícia local pode verificar no sistema se a prisão dele é pedida por outro estado. Além disso, todos os cidadãos podem ter acesso ao banco.
Dados sobre procurados
Segundo a resolução do CNJ que instituiu o banco de dados, qualquer agente policial poderá efetuar a prisão determinada no mandado, ainda que fora da competência territorial do juiz que o expediu. Se isso acontecer, o juízo que tomou conhecimento da prisão deve comunicá-la às outras autoridades em 24 horas. Mas apenas o juízo expedidor do mandado pode atualizar a situação no BNMP.
O banco de dados do CNJ contém várias informações sobre os procurados: o número do processo, o nome do magistrado que fez o pedido, os crimes dos quais a pessoa é acusada e as características físicas dela. Em alguns casos, há fotos dos réus. São quase 105 mil fichas oriundas do Tribunal de Justiça de São Paulo. No caso do TJ do Rio, são 36,4 mil.
Os próprios tribunais alimentam a base com as informações dos investigados.