16 de maio de 2013


'Comportamento de Obama é contrário à imprensa livre'


Presidente mundial da agência de notícias Associated Press, Gary Pruitt estava em visita à América Latina quando se viu envolvido no que pode se tornar um dos maiores escândalos do governo Obama: o monitoramento de ligações telefônicas de cerca de cem jornalistas da organização, um gigante com escritórios em 110 países.
O Departamento de Justiça não comenta o caso, mas extraoficialmente o objetivo seria identificar a fonte de uma reportagem de maio de 2012 da AP sobre um plano da Al Qaeda no Iêmen para explodir um avião para os EUA.
Durante passagem por São Paulo, Pruitt disse à Folha que razões de segurança nacional não justificam uma ação "ilegal". Para ele, Obama é mais agressivo com a imprensa do que seu antecessor, George Bush (2001-09).
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Folha - Como o sr. define a ação do governo?
Gary Pruitt - Secretamente requisitaram e obtiveram uma ampla quantidade de registros telefônicos. O alcance disso é amplo demais e ilegal.
O governo não tem o direito, por razões de segurança nacional?
O governo tem o direito de conduzir investigações criminais, mas quando se trata da mídia há regras que eles precisam seguir, com exceções restritas. Nesse caso, alegaram que a ação era restrita. Discordamos. A busca envolveu 20 números da AP, incluindo telefones gerais, residenciais e faxes, usados por até cem jornalistas.
Deveriam ter vindo até nós com antecedência. Precisam fazer isso, a não ser que sentissem que vir a nós com antecedência substancialmente ameaçaria a integridade da investigação.
Mas esses eram registros em poder de uma terceira parte, as companhias telefônicas. Não poderíamos ter interferido neles. Poderiam ter vindo a nós e conversado conosco, sem nenhum perigo.
Se eles tivessem ido a vocês, vocês teriam colaborado?
Quando eles nos contatam, e isso acontece com toda a mídia nos EUA, o que tentamos fazer é negociar com eles, para restringir o foco e ver se há outras formas de conseguir a informação que querem sem comprometer os direitos livres da imprensa. Normalmente, conseguimos resolver.
Vocês consideram processar o governo?
Nós temos de considerar todas as opções. Mandamos uma carta de protesto, eles responderam, respondemos de volta, e teremos de ver se pode haver alguma discussão entre a AP e o Departamento de Justiça. Estamos preocupados sobretudo com as táticas exageradas e queremos ter certeza de que nada como isso acontecerá de novo.
Vocês então preferem um acordo a um processo?
Preferiríamos que eles concordassem em não fazer isso de novo. E nesse caso, devolver e destruir os registros telefônicos. Também reconhecer que foi algo amplo demais. Nós entendemos que há certas circunstâncias envolvendo segurança nacional onde o governo dos EUA precisa investigar. De outro lado, os EUA têm a Primeira Emenda da Constituição, protegendo a imprensa livre. Essas coisas precisam ser equilibradas.
A AP reconheceu a segurança nacional nesse caso, quando obtivemos a história sobre o atentado à bomba de um avião indo para os EUA.
O governo nos pediu para segurarmos a informação. E nós fizemos, até que o governo nos disse que as preocupações tinham passado. Também tínhamos um interesse em segurança nacional. Obtivemos informação que os americanos deveriam saber, evidência de atividades terroristas contra os EUA.
O sr. vê isso como uma tentativa de intimidação?
Comportamentos como esse vão intimidar delatores potenciais dentro do governo e fontes de jornalistas, se acham que serão expostos.
O que isso diz sobre a relação de Obama com a mídia?
O comportamento da administração Obama nesse caso é contrário à noção de uma imprensa aberta, livre e robusta, que é garantida pela Primeira Emenda. Eles estão adotando táticas muito agressivas.
Táticas que ameaçam a imprensa livre?
Táticas que prejudicam a imprensa livre.
O sr. atribui isso à paranoia pós-11 de Setembro?
Não sei. Diria que a administração Obama tem sido mais agressiva que administrações anteriores, mesmo aquelas pós-11 de Setembro [a de Bush], ao ir atrás de delatores dentro do governo ou vazamentos.
Por que ele faz isso?
Não posso falar pelo presidente. Não sei. Gostaria que seguissem suas próprias regras de forma mais cuidadosa.
Vocês ainda estão negociando com eles?
Trocamos informações, vamos ver o que acontece.