27 de abril de 2013


'Valorizo cada minuto', diz jovem que buscou ar em freezer na boate Kiss

Três meses após tragédia, Ingrid Goldani retoma a rotina em Santa Maria.
Jovem buscou fôlego em freezer para se salvar na tragédia que matou 241.

Ingrid ao lado dos pais e irmãos na formatura da Brigada Militar (Foto: Arquivo Pessoal)

Com a gentileza que não se aprende em cursos, mas sim com as cicatrizes da vida, Ingrid Goldani divide a rotina entre a faculdade e o cuidado a pacientes, assim como ela foi por alguns dias. A estudante de enfermagem  é uma das sobreviventes do incêndio da boate Kiss, emSanta Maria. Em meio à fumaça, ela encontrou em um freezer do bar da casa noturna fôlego para sair do local com vida. Três meses depois da tragédia que matou 241 pessoas, a jovem vive intensamente cada dia.
Ficar trancada em casa não vai mudar o que aconteceu”
Ingrid, sobrevivente de tragédia na Kiss
“Tudo que dá para fazer, eu faço na hora. Nunca deixo para falar amanhã o quanto gosto de alguém. Tento aproveitar cada minuto ao lado da pessoa, valorizo cada minuto”, conta ao G1 Ingrid, que completou 21 anos em 8 de abril. Apesar do trauma, Ingrid considera-se mais otimista. Entre as lições que aprendeu após a tragédia, a mais valiosa foi a de nunca postergar.  “Se antes eu achava que sabia muita coisa, agora sei que não sabia nada. Temos que estar sempre dando valor, e é isso que quero passar para os meus filhos. Família é o que existe de mais importante”.
Ingrid trabalhava atrás de um balcão quando o fogo começou em 27 de janeiro. Ao perceber que a fumaça tomava conta do ambiente, abriu o freezer, puxou ar e pulou o móvel para fugir do local. Caiu e foi ajudada por um conhecido que só a identificou do lado de fora do prédio. Já em casa,  a estudante sentiu-se mal e ficou uma semana internada no CTI de um hospital de Porto Alegre por problemas respiratórios.
Ingrid (de preto no centro) ao lado dos amigos em um aniversário (Foto: Arquivo Pessoal)Ingrid (de preto no centro) ao lado dos amigos em
um aniversário (Foto: Arquivo Pessoal)
Três meses depois do incêndio, Ingrid faz estágio em um posto de saúde de Santa Maria e já pensa na possibilidade de sair do município para investir na carreira. Se antes trabalhava na casa noturna, agora a estudante vê a tragédia como um reforço na escolha do seu futuro. “Quando entrei na faculdade, foi meio no escuro, não sabia direito se era isso. O que aconteceu só confirmou. Mesmo na situação que eu estava no dia, eu quis dar minha parcela de ajuda na situação”, revela, entusiasmada com o futuro. Casamento e filhos ficam em segundo plano, por enquanto.
De manhã, Ingrid tem dificuldade para acordar. É durante o sono que a jovem relaxa. “Todo mundo dizia que não conseguia dormir. Comigo é ao contrário. À noite entro nos sonhos e esqueço. No restante do tempo é impossível não lembrar”, conta.  A estudante acredita que há uma explicação para o que aconteceu. “Sou espírita e busquei na religião respostas. Tudo já estava escrito e aquelas pessoas cumpriram a sua missão”, afirma.
O momento mais difícil do dia para a jovem é a aula. Alguns dos amigos que perdeu na boate eram colegas da faculdade. “Chego aos lugares e é impossível não lembrar, pensar que estive ali com a pessoa, que ela gostava de fazer determinadas coisas”, relembrou. Os perfis das vítimas que não foram apagados pelos parentes em redes sociais também reforçam a saudade. Quando a dor aperta, Ingrid gosta de escrever. “Costumo ir até o Facebook e contar que sonhei com meu amigo. Agradeço a ele por ter aparecido nos meus sonhos e digo que continuo lutando”.
Família recebe atendimento psicológico
O incêndio abalou toda a família de Ingrid. O irmão, Fabio, se formou no último fim de semana como soldado do 1º Batalhão Rodoviário da Brigada Militar. Ele também estava na Kiss na madrugada da tragédia. A família recebe atendimento psicológico semanalmente, mas Ingrid garante que a presença dos amigos é o que mais ajuda. “Passei um bom tempo rodeada de gente e isso ajudou bastante”, agradece.
Sair para festas novamente é um assunto ainda delicado. A gaúcha ainda não se sente recuperada, e ambientes fechados lhe causam iritações nas vias respiratórias. "Saí para um aniversário de uma amiga. Fiquei com medo, mas ficar trancada em casa não vai mudar o que aconteceu", completa.
Amigos da faculdade fizeram uma festa surpresa para Ingrid, depois de sair do hospital (Foto: Arquivo Pessoal)Amigos da faculdade fizeram uma festa surpresa para Ingrid (no centro, sentada), depois de sair do hospital (Foto: Arquivo Pessoal)
Entenda
O incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, região central do Rio Grande do Sul, na madrugada de domingo, dia 27 de janeiro, resultou em 241 mortes. O fogo teve início durante a apresentação da banda Gurizada Fandangueira, que fez uso de artefatos pirotécnicos no palco.
O inquérito policial indiciou 16 pessoas criminalmente e responsabilizou outras 12. Já o MP denunciou oito pessoas, sendo quatro por homicídio, duas por fraude processual e duas por falso testemunho. A Justiça aceitou a denúncia. Com isso, os envolvidos no caso viram réus e serão julgados
Veja as conclusões da investigação
- O vocalista segurou um artefato pirotécnico aceso no palco
- As faíscas atingiram a espuma do teto e deram início ao fogo
- O extintor de incêndio do lado do palco não funcionou
- A Kiss apresentava uma série das irregularidades quanto aos alvarás
- Havia superlotação no dia da tragédia, com no mínimo 864 pessoas
- A espuma utilizada para isolamento acústico era inadequada e irregular
- As grades de contenção (guarda-corpos) obstruíram a saída de vítimas
- A casa noturna tinha apenas uma porta de entrada e saída
- Não havia rotas adequadas e sinalizadas de saída em casos de emergência
- As portas tinham menos unidades de passagem do que o necessário
- Não havia exaustão de ar adequada, pois as janelas estavam obstruídas