10 de abril de 2013


Salgadinhos versus bolachas


É jogo duro driblar a vontade de atacar salgadinhos e biscoitos recheados até que não reste pacote na despensa. Pena que tenham pouquíssimo — ou quase nenhum — valor nutritivo

por Cida de Oliveira / foto Cacá Bratke

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Se você tivesse de apontar qual das guloseimas destas páginas é a mais perigosa, o que diria? Se a resposta foi “todas”, acertou em cheio. Elas são mesmo altamente calóricas. Compare: uma simples bolachinha recheada, de 15 g, tem 73 calorias, enquanto um pacote com 20 g de salgadinho de milho soma 100. Agora, se você pensa que gordura é privilégio do salgado, errou redondamente. O biscoito, que parece tão inocente, é pra lá de rico em gorduras saturadas e sódio, quase tanto quanto o seu oponente cheio de sal, que vence a parada porque a fritura costuma entrar no processo de fabricação da maioria das marcas. A favor da bolacha doce estão alguns (poucos) nutrientes — vitaminas, ferro e cálcio, que são adicionados à fórmula.

O valor calórico e o efeito fritura são fatores que põem os dois petiscos na alça de mira dos especialistas em saúde. Muitos deles, por sinal, defendem que essas delícias sejam banidas do cardápio, até mesmo do das crianças sem problemas com a balança. É que elas carregam o peso da gordura trans, ou hidrogenada, assídua em sorvetes e na batata frita das fast-food, por exemplo. “Essa substância é capaz de derrubar os níveis de HDL, o bom colesterol, e elevar as taxas de LDL, a versão ruim da molécula”, explica a nutricionista Renata Padovani, pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação da Universidade de Campinas (Unicamp). E aí o mau colesterol dá um passeio ao pé da letra. Fica circulando à vontade pelo sangue e, assim, aumenta o risco da formação de placas nas artérias, a aterosclerose. Está pensando que é cedo para se preocupar com isso? Puro engano. Há evidências de que o processo aterosclerótico começa a se desenvolver na infância. As estrias gordurosas, precursoras dessas placas, podem surgir na aorta já aos 3 anos de idade — acredite!

Hipertensão infantil, que perigo!

Uma olhadinha na tabela nutricional impressa nas embalagens mostra também que tanto salgadinhos como bolachas recheadas têm altas taxas de sódio. Esse ingrediente entra não só na composição do conhecido sal de cozinha, como também no bicarbonato de sódio e no pirofosfato dissódico, utilizados como fermento químico na indústria de alimentos. Os aromatizantes, que proporcionam sabor, também podem levar sódio em sua composição. Como os conservantes, essas substâncias, às vezes, desencadeiam ainda reações alérgicas em quem já tem predisposição. Em níveis normais, o sódio atua no equilíbrio hídrico do organismo e na transmissão de sinais nervosos. Já em quantidades excessivas, não é totalmente eliminado pelos rins e faz o corpo reter líquidos, contribuindo diretamente para a elevação da pressão arterial, entre outros malefícios. De novo, isso também tem a ver com as crianças. Tanto assim que a Sociedade Brasileira de Hipertensão faz um alerta: a hipertensão arterial infantil não ocorre apenas em situações especiais, como doenças renais ou congênitas. Maus hábitos à mesa contribuem — e muito. Isso significa cair de boca em pratos com alto teor de gorduras, açúcar e sal, ou seja, tudo o que salgadinhos e bolachas recheadas têm de sobra. “Estima-se que 5% da população infantil e adolescente apresenta pressão alta”, afirma a cardiologista Andréia Araújo Brandão, conselheira científica da instituição.