13 de março de 2013


No Recife, feirante usa horário de almoço para alfabetizar trabalhadores


Três vezes por semana, Valderice Barros dá aulas na Ceasa.
Formada em pedagogia, a feirante dava aulas em escolas públicas.


                    

 Falta de tempo não é desculpa para deixar de ajudar o próximo. É com esse pensamento que a feirante e professora aposentada Valderice Barros, de 67 anos, se divide entre o trabalho no Centro de Abastecimento e Logística de Pernambuco (Ceasa), no RECIFE, e a função de alfabetizadora. Três vezes por semana, ela abre mão do horário do almoço para dar aulas a uma turma de trabalhadores que buscam escrever um futuro diferente, como mostrou o Bom Dia Pernambuco desta quarta-feira (13).
Natural de Lajedo, no Agreste de Pernaburco, Valderice mora atualmente em Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife.  Todos os dias, ela acorda bem cedo e segue para o Ceasa, onde trabalha com revenda de ovos e coordena atentamente os funcionários. “Eu chego aqui às 4h30, acordei às 3h30”, conta a feirante.
Formada em pedagogia, Valderice ensinou em escolas públicas e, quando se aposentou, não abandonou a sala de aula. Ao meio-dia, dona Val,como é conhecida, deixa tudo o que está fazendo para seguir até a Associação de Usuários do Ceasa, onde se encontra com seus alunos de alfabetização.
Valderice dá aulas de alfabetização de adultos (Foto: Reprodução/Globo Nordeste)
A professora aposentada usa o método criado pelo educador pernambucano Paulo Freire,  que alfabetiza o adulto por meio de palavras do dia-dia. “Já aprendi tanto com eles. O trabalho deles, o carinho que eles têm, só quero bem a esses ‘meninos’. Eles são mais que meus alunos, são meus filhos. Cada dia que passa, me sinto fortalecida quando saio daqui”, conta a professora.
Funcionário do Ceasa há 23 anos, o auxiliar administrativo Eduardo de Souza, de 47 anos, só agora aprendeu a escrever o nome do lugar em que trabalha. “Passava o ônibus e eu não pegava porque não sabia direito qual pegar. Agora consigo pegar tranquilo, já leio a plaquinha”, diz, orgulhoso, o auxiliar administrativo.
O auxiliar de serviços gerais Alex Ferreira, de 33 anos, se dedica a aprender a ler e escrever para realizar um sonho antigo. “Não quero parar até eu conseguir ter a minha carteira de motorista. A primeira passageira que vou levar é a professora”, promete Ferreira.
Aos 37 anos, o pedreiro Brivaldo Feitosa já havia tentado duas vezes retornar a escola, mas o cansaço pelo longo dia de trabalho sempre o fazia desistir. “Perdi muito emprego bom por causa do estudo. Fui fazer uma prova e saí, porque não sabia fazer”, relembra o pedreiro, que se sente feliz por finalmente conseguir levar adiante os estudos. “É como se tivesse ganhado um prêmio”, conta.
Trabalhadores aprendem a escrever (Foto: Reprodução/Globo Nordeste)
O estoquista Josivaldo dos Santos foi aluno da primeira turma de alfabetização, dez anos atrás. Antes de aprender a ler, passou muito sufoco por não conseguir ler e fazer a conferência dos materiais, morria de vergonha da situação, mas conseguiu reverter o quadro. “Agora, despacho até melhor que os meus colegas”, garante o estoquista, que agradece a professora de coração por tudo que aprendeu. “A gente tem muito que agradecer, a ela e a Deus”, afirma Santos.
Agora, o auxiliar de serviços gerais Marcos Xavier não vai passar mais aperto para mandar cartão para a namorada. “Eu falava, mas não sabia escrever. Estou tentando até mandar cartão para ela [namorada] agora”, conta.