23 de março de 2013


Mais de 4 mil casos de dengue em 2013 deixam BH em alerta

Para secretaria, circulação de novo vírus é principal causa do problema.
Mesmo com prevenção, 80% dos focos estão em imóveis.

Com sintomas da dengue, Márcia Augusta, de 45 anos, foi a UPA 1º de Maio em busca de atendimento (Foto: Flávia Cristini/G1)

Dor de cabeça, no corpo, febre, fraqueza, suor frio. Márcia Augusta dos Santos, de 45 anos, não conseguia esconder as queixas. Ela chegou a uma unidade de saúde às 6h30 e passou por uma triagem. Ganhou uma fita azul, com a descrição “dengue” e, cerca de quatro horas depois, esperava o atendimento médico. A cada semana, os números da dengue aumentam na capital mineira, deixando unidades de saúde sempre cheias. Os dados mais recentes apontam que 4.215 pessoas já foram infectadas pelo vírus na cidade.  em apenas sete dias, a prefeitura admite estado de alerta.

A Região Norte, onde está localizada a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) 1º de Maio, é a mais afetada. Nesta sexta-feira (22), a procura por atendimento deixou a unidade “superlotada” de pessoas com sintomas da dengue, conforme um funcionário. Segundo ele, todos recebiam atendimento, mas com prazo demorado.
Márcia Augusta, uma destas pacientes, conta que, um dia após o início dos sintomas, ela procurou um hospital e não conseguiu ser atendida. No terceiro dia, já com muita fraqueza, foi até a UPA. Em casa, tratou de tomar muita água e acabou se automedicando.
Evolução da dengue em Belo Horizonte (Foto: Arte/G1)
Todas as quartas-feiras, a Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizontedivulga o balanço dos casos de dengue. A comparação entre os dados semanais revelam números que não param de crescer.

No dia 16 de janeiro, a prefeitura registrava os primeiros casos da doença neste ano. Nesta data, eram apenas duas confirmações. Já no dia 23 de janeiro, 95 pessoas já haviam contraído a doença, o que representa aumento de 4.650% em uma semana.
Entre 23 e 30 janeiro, foram registrados 104 novos casos, chegando a 199. Neste período de sete dias, a elevação foi de 109,47%. Já entre 30 de janeiro e 6 de fevereiro, as confirmações dobraram: de 199 foram para 400, crescimento de 101%.  Na semana seguinte, no dia 13 de fevereiro, a quantidade de casos da doença cresceu, mas de forma menos expressiva. De 400 casos confirmados, o número foi para 464, representando uma elevação de 16%.

Em 20 de fevereiro, as confirmações da doença já chegavam a 606, total 30,6% maior que o verificado na semana anterior. Já no dia 27 do mês passado, os números praticamente dobraram, com crescimento de 92,24%. Nesta data, os casos confirmados saltaram para 1.165. Entre a última semana de fevereiro e a primeira de março, o aumento foi de 40%.

Os dados, divulgados no último dia 6, apontavam alta de 40% nos casos da doença. Já no dia 13 deste mês, as confirmações chegavam a 2.457, uma elevação de 50,64%. Entre os dois últimos balanços – entre 13 e 20 de março –, o crescimento foi de 71,55%, com 1.758 novos casos, totalizando 4.215 pessoas infectadas em 2013.
Situação de alerta
Apesar dos números crescentes da dengue em Belo Horizonte, o secretário municipal adjunto de Saúde, Fabiano Pimenta Júnior, afirma que a cidade ainda não vive uma situação de epidemia. Segundo ele, o Ministério da Saúde considera epidemia quando há 300 casos da doença a cada grupo de 100 mil habitantes; na capital mineira, atualmente, esta proporção é de 177 para 100 mil. O secretário adjunto, porém, reconhece que a cidade está em "estado de alerta". "Nós consideramos um estado de alerta, de preocupação, apesar de a Prefeitura não ter desmobilizado e não ter deixado de fazer as ações recomendadas pelo Ministério da Saúde", diz.
Fabiano Pimenta Júnior argumenta que a redução, ano a ano, do índice de infestação do mosquito na capital é um reflexo da constate preocupação das autoridades do município em relação à doença.  Segundo ele, em janeiro de 2010, o Levantamento Rápido do Índice de Infestação por Aedes aegypti(LIRAa) apontou índice de 4.2%; já, em janeiro 2013, foi registrado 1.9%.

O secretário adjunto ressalta que a principal causa das contaminações, neste ano, não se deve ao aumento dos focos do mosquito, mas à circulação de um novo sorotipo do vírus da dengue, o tipo 4. "Temos evidências muito concretas que o sorotipo 4 é que está circulando com maior intensidade em todas as regiões da cidade, explicando o aumento de casos, quando se compara com 2012 e 2011", pontua.

A professora associada do Departamento de Microbiologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Erna Kroon, esclarece que a circulação de um novo tipo de vírus pode favorecer o aumento da contaminação, uma vez que grande parte das pessoas não tem anticorpos contra ele. “Existe um vírus circulando, grande parte da população é infectada e desenvolve anticorpos. Então, entra um novo tipo de vírus, e, assim, cresce a chance de ter uma nova epidemia”, explica.
Ambiente úmido e quente
Erna Kroon classifica a doença como complexa e multifatorial. Além da circulação do tipo 4, a especialista chama a atenção para outros dois fatores que podem ter contribuído para este aumento. Erna destaca que, em todas as localidades onde há incidência de dengue, é observado um ciclo em que a cada quatro ou cinco anos há uma tendência de crescimento do número de contaminações. Segundo ela, neste ciclo, são verificadas “curvas descendentes” e “curvas ascendentes”. Conforme a professora, esta última situação corresponde ao momento pelo qual Belo Horizonte está passando.

A especialista também afirma que a diferença nas condições climáticas observadas na cidade neste ano pode ter influenciado a expansão dos casos. De acordo com Erna Kroon, neste verão, as temperaturas foram superiores às registradas em ano anteriores, e, de modo contrário, as chuvas foram mais brandas. Ela explica que temperaturas mais elevadas favorecem o desenvolvimento mais rápido do vetor da dengue – o mosquito Aedes aegypti – e também a multiplicação do vírus neste vetor.  Ainda afirma que a chuva em menor intensidade favorece a eclosão dos ovos do mosquito, enquanto a chuva forte pode provocar enxurradas e varrê-los.
Vetor Norte
As regiões com maior número de confirmações da doença são a Norte, com 185 casos, a Nordeste, com 728, e a Pampulha, com 581. O secretário adjunto, Fabiano Pimenta Júnior, diz que não é coincidência o fato de as áreas com maior incidência de contaminação pela dengue estarem localizadas no Vetor Norte de Belo Horizonte. Questões climáticas, de organização urbana e populacionais podem ser apontadas como as causas desta concentração.

De acordo com secretário adjunto, no Vetor Norte da capital, as temperaturas podem ser de 3ºC a 4ºC superiores às registradas em regiões como a Centro-Sul e o Barreiro, favorecendo, assim, a proliferação do mosquito da dengue. Os bairros localizados na porção Norte também são mais horizontalizados que verticalizados, ou seja, concentram mais casas do que prédios. Fabiano Pimenta Júnior esclarece que este fator também facilita a contaminação, uma vez que o mosquito, normalmente, está presente em áreas mais baixas. Além disso, nestas localidades, há grande densidade populacional.
Plano de contingência
Nesta sexta-feira (22), no Centro de Saúde do bairro Tupi, também na Região Norte, um cartaz alertava os pacientes sobre mudanças no atendimento. “Devido ao aumento dos casos de dengue, a partir de 18/03/13 está suspenso o agendamento de consultas”, dizia o informe. O cartaz também informava o endereço de um posto que ficará aberto durante o fim de semana.

A Secretaria Municipal de Saúde afirma que está preparada para atender a população contaminada pelo vírus da dengue. De acordo com o secretário adjunto, um plano de contingência, com diversas ações, foi elaborado e está sendo colocado em prática. "Nós geoprocessamos todos os casos suspeitos e confirmados, o que permite a análise cotidiana. Assim conseguimos verificar onde os casos estão concentrados e para estes locais são direcionados mutirões, ações de mobilização", exemplifica.

Também a partir deste levantamento, a secretaria diz ter intensificado o atendimento em centros de saúde e em UPAs. De acordo com Fabiano Pimenta Júnior, conforme a demanda, uma das medidas adotadas . Além disso, estruturas com leitos, exclusivas para atendimento de casos de dengue, serão instaladas em unidades na próxima semana. E, desde o dia 4 de março, uma unidade de reposição volêmica, onde é feita a hidratação venosa de pacientes, passou a funcionar no Hospital Nossa Senhora Aparecida.
Dengue  (Foto: Divulgação )
Antônio João da Silva é um dos agentes da prefeitura que vistoriam as casas em Belo Horizonte (Foto: Flávia Cristini/G1)
Onde mora o perigo
Nas unidades de saúde, a preocupação é com o tratamento. Em casa, com a prevenção. De acordo com dados do Ministério da Saúde, na Região Sudeste do país, 63,6% dos criadouros do Aedes aegypti estão em domicílios. Em Belo Horizonte, este percentual é ainda maior. O último LIRAa apontou que 80% dos focos do mosquito estavam em imóveis habitados da capital mineira.

A prefeitura afirma que está investindo nas vistorias nos domicílios. Fabiano Pimenta Júnior pontua que Belo Horizonte tem ido além das orientações do Ministério da Saúde. Segundo ele, o recomendado é um agente para cada 800  a 1 mil imóveis. "Em BH, na média, temos um agente para cada 700 imóveis. Absolutamente cumprida a recomendação", avalia.
O diagnóstico de onde mora o perigo dá muito trabalho para o agente Antônio João da Silva, que integra uma das equipes de combate a endemias da Prefeitura de Belo Horizonte. Em um dia, são cerca de 40 visitas a casas e imóveis, segundo ele. “Visitamos os moradores, orientamos e eliminamos alguns focos”, explicou.
Para prevenir, são necessários cuidados simples, como manter o quintal limpo, a caixa d’água devidamente fechada e vasos de plantas sem acúmulo de água. “Um foco que você acha pode dar problema na comunidade toda”, disse Silva. Por isso, é importante que a conscientização seja de toda a vizinhança.
Durante as visitas, a larva do mosquito, quando encontrada, é combatida com veneno. A aplicação deve ser feita por um agente da prefeitura. Se o foco estiver na caixa d’água, é preciso esvaziar e lavar bem as paredes, antes de retomar o uso.

Com quintal amplo e cheio de plantas, o aposentado Francisco de Oliveira Maia, de 62 anos, não descuida. “Sempre tenho a preocupação, porque a gente vê acontecer [a contaminação pelo vírus da dengue] em volta. O cuidado é importante”, falou. Na casa dele, moram seis pessoas, e algumas já tiveram a doença no passado. Ele diz que verifica o quintal frequentemente e não deixa nenhuma água parada. O bom exemplo afasta a possibilidade de proliferação do mosquito.