25 de março de 2013


Após matar criança de 18 meses, cão pitbull vira símbolo de direito dos animais em Portugal

Um cachorro da raça pitbull que matou uma criança de 18 meses no início de janeiro em Beja, a 192 km de Lisboa (Portugal), se transformou em símbolo da luta pelos direitos dos animais naquele país.
Zico, que tem nove anos, seria sacrificado em decorrência do ataque, mas a execução foi suspensa pela Justiça depois que o bicho recebeu o apoio de artistas e defensores de animais na mídia e em redes sociais.
A decisão de manter Zico vivo é provisória e vale enquanto durarem as investigações do caso, que estão sendo conduzidas pelo Ministério Público de Beja. No momento, Zico segue isolado em um canil intermunicipal, próximo à cidade, onde estão outros 60 cães. O processo que investiga o caso tramita em segredo de Justiça.
A morte da criança ocorreu em 8 de janeiro, dois dias depois do ataque, que aconteceu num pequeno apartamento. No imóvel vivem ainda os pais da criança, um avô e um tio, que seria o dono do cão.
Por falta de espaço, Zico passava o dia na varanda e dormia na cozinha à noite. No dia 6 de janeiro, a criança entrou na cozinha com a luz apagada e tropeçou no animal, que a atacou, segundo relata o avô, Jacinto Janeiro. O idoso declarou a uma emissora de televisão que o abate do cão, para a família, seria "indiferente".

Petição online

Não é o que pensam os defensores do cachorro. Mais de 60 mil pessoas já declararam apoio online à causa do animal, na petição intitulada "contra o abate do pitbull "Zico" e de todos os outros "Zicos"!", que também ganhou uma página noFacebook.  De acordo com a autora da iniciativa, Isabela Silva, "um cão que nunca fez mal durante oito anos e atacou [agora] é porque teve algum motivo" para agir assim.
Para os apoiadores da causa, a responsabilidade pela morte da criança é dos donos do pitbull. Segundo Rita Silva, presidente da Associação Animal, que conseguiu na Justiça a suspensão da eutanásia do cachorro, Zico é tão "inocente" quanto a criança atacada por ele. Para ela, as condições em que o cachorro era criado pela família podem ter favorecido o ataque.
Além da petição de apoio a Zico, outra iniciativa semelhante coleta assinaturas na internet reivindicando uma nova legislação para os animais em Portugal. A lei atual, segundo os ativistas, trata os bichos como "coisas" e é tolerante com "práticas cruéis, inaceitáveis e absolutamente desnecessárias", como ilustraria o caso Zico.
A comoção em torno do pitbull assassino levou muitas pessoas a se interessarem pela sua adoção, o que foi descartado pela Justiça. Caso se entenda que não será conveniente abater o animal, os donos terão preferência pela sua "reintegração".
Independentemente da aceitação ou não do cachorro de volta, os responsáveis correm o risco de serem condenados por não estarem com a documentação do bicho em ordem, conforme as regras do país para cães ferozes, e pela morte da criança por negligência. As duas penas somam cinco anos, mas a primeira pode ser convertida em multa.

"Raças perigosas"

Apesar da repercussão do caso, Zico não é unanimidade no país. Partidários de seu sacrifício, a exemplo dos ativistas, também protocolizaram uma petição pública pedindo assinaturas a favor da execução, mas sem o mesmo sucesso.
O autor foi procurado pelo  e-mail para se manifestar sobre o caso, mas não respondeu à solicitação. O Instituto de Apoio à Criança de Portugal é outro exemplo de posicionamento desfavorável à causa de Zico.
A entidade pede medidas do governo para que situações como a de Beja não se repitam. O instituto afirma em nota que se solidariza "com as famílias que têm sofrido o drama de suas crianças terem sido mortas por cães de raça perigosa".
Um argumento utilizado pelos críticos dos ativistas é que o nome do cão se tornou mais conhecido do que o da criança morta por ele, o que revelaria descaso à vida humana.
Na data do ataque, o menino Dinis Janeiro sofreu traumatismo craniano e perdeu massa encefálica. Ele precisou ser transferido de helicóptero de Beja, onde recebeu os primeiros socorros, para um hospital em Lisboa, mas morreu dois dias depois.

Falta de exercícios

A execução de Zico estava prevista para ocorrer oito dias após a morte do garoto, conforme prevê a legislação portuguesa. Quando foi recolhido ao canil, Zico estava tranquilo e não demonstrava agressividade, segundo a veterinária que o acolheu.
O pitbull fica isolado numa cela de três metros quadrados. As condições do cachorro são criticadas por ativistas da Associação Animal. Sua musculatura estaria definhando por falta de exercícios.
Em entrevista ao  nesta segunda-feira (25), António Sebastião, 61, presidente da Resialentejo, empresa que administra o canil, afirmou que a situação de Zico já foi comunicada ao Ministério Público em relatório assinado por oito veterinários.
"Os cães dessa raça se tornam agressivos quando submetidos a situações estressantes. O ideal é que se exercitem diariamente, mas não temos como dar essa atenção. Estamos fazendo o melhor que podemos", declarou.
A Associação Animal afirma que notou um crescimento no abandono de cachorros ferozes em canis municipais, em razão da repercussão do caso. A entidade vem apelando para os donos conservarem seus animais, em vez de se desfazerem deles.